Angra Jazz 2026
«O Angrajazz é um festival assumidamente generalista, que tem como principal objetivo a divulgação e o desenvolvimento do gosto pelo jazz nos Açores, ao mesmo tempo que, pela sua qualidade, marque presença no calendário anual do jazz nacional.» e «Alguns dos concertos realizados ao longo das várias edições deste festival, entraram para a lista dos melhores concertos do ano em Portugal, lista esta elaborada pela crítica nacional da especialidade.», está escrito nos objectivos do Angra Jazz.
A edição de 2026, a 27.ª, confirma esses objectivos e resultados: a qualidade e na variedade, e os prémios pelo trabalho, pela competência e pela sabedoria. E amor pelo Jazz.
Amanhã mesmo, sexta 2, o festival arranca com a Orquestra Angra Jazz num concerto que se adivinha especial. Na no em que se comemoram os 100 anos do nascimento de alguns dos mais importantes dos músicos de Jazz de sempre como Miles Davis e John Coltrane , a Orquestra AngraJazz evoca a colaboração de Miles Davis com o Gil Evans. Miles Davis tinha trabalhado com o orquestrador em 1948 (no que é conhecido hoje como o Birth of the Cool), mas as características avançadas da obra interromperam a colaboração até que, já na Columbia e com carta branca, Miles Davis voltou a chamar Evans para um projecto ambicioso, de que resultaria Miles Ahead.
Nos anos seguintes Miles Davis e Gil Evans voltariam a reunir-se para a recriação do Porgy And Bess e o escandaloso Sketches of Spain, para além de outras colaborações menores.
A História de Miles Davis é tão rica que autoriza inúmeras possibilidades e abordagens e ousar tocá-lo é desde logo um desafio e uma glória. O que a Orquestra Jazz se propõe fazer é pois um desafio inevitável, «a obra orquestral de Miles Davis»!, e uma vitória.
O repertório que a Orquestra AngraJazz irá tocar pertence a Miles Ahead e Porgy and Bess, duas obras maiores, dois momentos seminais na Históriia do Jazz e constituirá um dos maiores desafios dos vinte e quatro anos de vida da orquestra.
Uma prova de fogo e um grande espectáculo em perspectiva.O Jazz composto continua nessa primeira noite, levada pelas mãos da compositora Leïla Olivesi, que deverá apresentar o "African Rhapsody”, a música do álbum com o mesmo nome de 2025, que tem obtido especial atenção da crítica europeia, com menções e prémios na Jazz Magazine e Jazz News.
Compositora, bandleader e pianista, Leïla Olivesi estreia-se em Portugal no palco do AngraJazz à frente de um octeto de quatro sopros e secção rítmica alargada, com algumas características de câmara. Inteiramente composto e arranjado por Olivesi, o "African Rhapsody” é uma peça com muito de simbólico, para o Jazz e para si também. Não sendo música africana, o Jazz deve a África uma ancestralidade que ele nunca chegou a conhecer, mas que é simbolicamente uma procura de algo que já não existe. Para si também, simbolicamente também, nascida em França com raízes numa de muitas Áfricas, a Mauritânia, «African Rhapsody» vive dessas dívidas e dessas contradições, entre o passado e o futuro.O dia seguinte, sábado 3, é o dia da banda portuguesa e calhou este ano a Pedro Neves, um tripeiro bem-humorado que já toca há uns bons anos e que tem explorado a nobre arte do trio e já gravou, ao que sei, cinco discos.
Northern Train, o seu último disco (Porta Jazz), confirma a solidez do piano de Pedro Neves e confirma-o também como compositor mas, algo diferente dos anteriores, ele alarga as possibilididades da sua música ao experimentar um sopro, que no disco é o trompetista Javier Pereiro, e em Angra será o saxofonista José Soares. E, independentemente das virtudes do trompetista, podemos assegurar, do que conhecemos de Soares, que o concerto em nada perderá com a troca. E, já agora também, outra novidade de nota é o atento e irrequieto e igualmente bem-humorado José Marrucho nas peles e nos pratos. E o trio-quarteto completa-se com a âncora que é o baixo de Miguel Ângelo, e que Neves conhece bem como as teclas do piano.A segunda noite é tradicionalmente a noite da voz, que este ano tem como protagonista o jovem Tyreek McDole.
A voz é, como sabemos, um instrumento perigoso, mas é também o mais popular, ultrapassando com frequência as esquivas fronteiras do Jazz, também no público.
Pouco sabemos de McDole para além do que lemos e ouvimos na internet; que é um barítono com voz de veludo, e que colecciona prémios. O concerto do jovem Tyreek McDole constitui para mim a maior interrogação do festival porque, se os seus dotes vocais e técnica são inquestionáveis, as gravações que dele ouvi têm já algum tempo e é natural que ele tenha evoluído muito rapidamente. O certo é que Tyreek McDole fará do concerto o que ele quiser.Se o primeiro concerto do AngraJazz 2026 evoca a música de Miles Davis, o concerto de Aaron Parks e Walter Smith III celebram a música de John Coltrane, como o trompetista nascido há cem anos.
Um dos discos mais populares de John Coltrane foi Ballads, de 1963, ainda com o quarteto, Envin Jones, McCoy Tyner e Jimmy Garrison alternando com Reggie Workman; se sucede a African/ Brass, um disco polémico à altura, e que precede o período mais conturbado de A Love Supreme. Ballads surge como um compromisso com a editora, e reza a história que o quarteto entrou na sala de gravação sem qualquer ensaio ou pautas. Ballads parecia querer satisfazer os amantes da música mais acessível como o popular My Favorite Things.
A verdade é que Ballads é um disco muito bonito, como só John Coltrane era capaz, e há mais profundidade nas baladas mais abandonadas do saxofonista do que nas complexas harmonias de muita música.
É esta beleza e complexidade harmónica que o pianista Aaron Parks e o saxofonista Walter Smith III pretendem visitar em Angra do Heroísmo, num dos concertos mais aguardados do festival.O outro concerto mais aguardado é o concerto de encerramento, da SF Jazz Collective. Já tardava, diríamos.
Criada em 2004 como um projecto colectivo singular capaz de abordar a história do jazz ou um autor ou tema de relevo, a SFJC já se debruçou sobre a musica de Ornette Coleman a John Coltrane, e de Thelonious Monk a Miles Davis, mas também de Sly Stone a António Jobim e Michael Jackson.
Numa renovação dos objectivos a SF foca-se desde 2025 na «tradução de artes visuais em som, abordando temas universais como as alterações climáticas, imigração, direitos LGBTQ+ e o conceito de pertença», a partir da exposição artística "ABOUT PLACE" dos Museus de Belas Artes de São Francisco.
Outra das características marcantes da banda é a fluidez dos membros e da direcção, que levou a que por ela passassem ao longo dos anos dezenas de músicos de primeiro plano, entre Miguel Zenon e Renee Rosnes, Mark Turner a Joshua Redman, Joe Lovano a Dave Douglas, e a lista de estrelas é exaustiva.
Os San Francisco Jazz Colective são actualmente dirigidos pelo saxofonista Chis Potter, um dos mais eminentes músicos de Jazz da actualidade e um virtuoso no seu instrumento, e contam com os também ilustres David Sánchez em sax tenor, Mike Rodriguez no trompete, Warren Wolf no vibrafone, Edward Simon no piano, Matt Brewer no contrabaixo e Kendrick Scott na bateria.
Tudo, o melhor, é de esperar no concerto do San Francisco Jazz Collective.Angra Jazz 2026
2 de Outubro
Oquestra AngraJazz
Leïla Olivesi Octet3 de Outubro
Pedro Neves Quarteto
Tyreek McDole Quartet4 de Outubro
Aaron Parks & Walter Smith III Duo
SF Jazz CollectiveCentro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo
Todos os concertos às 21.30AngraJazz, uma organização da
Associação Cultural Angrajazzhttps://angrajazz.com/